domingo, 18 de maio de 2025

Os gritos

Os Gritos

Por Suzana Super Maravilhosa

Se não fosse a pandemia, Ella talvez estivesse agora com os pés mergulhados na areia da praia, um livro nas mãos e o mar como confidente. Sempre que a casa pesava, que o ar parecia rarear por dentro, ela pegava sua canga, sentava diante das ondas e deixava a alma respirar entre uma página e outra.

Mas a pandemia trancou o mundo. Trancou também as válvulas de escape.

Dentro de casa, o silêncio virou ruído. E no lugar de um abraço, veio um grito. Do marido. Depois, outro. Como se fosse natural, como se gritar fosse apenas uma forma de expressão, como se o pedido de perdão fosse exagero.

Ella ficou. Tentou compreender. Mas o que se revelou foi uma verdade difícil de ignorar: aquele homem, com quem dividira anos de vida, se achava no direito de ferir com a voz e seguir como se nada tivesse acontecido.

Não havia mais mar. Não havia mais fuga. Havia o lar, que já não era lar. E então Ella pegou a mala e foi ficar com a filha. Dois anos. Tempo suficiente para costurar os pedaços, respirar novos ares e descobrir a mulher que havia dentro dela — forte, inteira, pronta para não mais aceitar o inaceitável.

Quando voltou, o mundo já se curava. E ela também.

Ella compreendeu que, às vezes, um grito é mais do que um som. É uma fronteira. E que quem o solta sem remorso, sem reflexão, sem desculpa, está dizendo muito mais do que imagina.

Ela não era mais a mesma. E nunca mais seria.

Suzana Super Maravilhosa

Nenhum comentário:

Postar um comentário