Crônica: O Tempo de Ella
Depois de uma certa idade, Ella descobriu que o tempo não corre — ele caminha. Às vezes, até senta para tomar um café. Aos 59 anos, ela já não vive pelas urgências que movem o mundo. Criou filhos, enfrentou tempestades, distribuiu abraços, suportou silêncios. E agora, enfim, se permite ser.
Ella dorme quando o corpo diz que é hora, acorda quando os olhos abrem devagar, sem despertador nem compromissos correndo atrás. Seu relógio é interno, sua agenda é o coração. Ela vai sem pressa para onde quer, e volta quando sente vontade. Já viveu a correria das manhãs de escola, das panelas no fogo, das contas no fim do mês. Hoje, ela vive o sabor do instante.
Não que a vida tenha ficado vazia. Ao contrário: agora está cheia — de pausas, de sossego, de música boa e do silêncio que ela aprendeu a ouvir. Ella dança na sala ao som do vento, ri sozinha com lembranças, veste o que quer e pinta os lábios se der vontade. Já chorou demais, já se cobrou demais.
Ella leva consigo o sorriso. Mas, por vê-la sorrindo, não julgue ser muito feliz — pois nem tudo que o coração sente é aquilo que a boca diz.
Ella não corre mais para provar nada a ninguém. Ela caminha, leve, porque já entendeu que o mais bonito da vida não está na chegada, mas no caminho.
Suzana Super Maravilhosa
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