**O Mergulho que Não Estava nos Planos**
*Por Mônica Paim – 17 de março de 2005*
Há dias em que o silêncio interno grita mais alto do que qualquer palavra. Eu, que sou de falar pelos cotovelos, me vi muda. Era dia de terapia — e eu precisava muito fazer algo diferente, algo que me lembrasse de mim mesma, da minha potência de provocar a própria felicidade.
Saí da sessão com esse desejo pulsando. Desci a Rua Chile em um diálogo mudo comigo mesma, mas a conversa fluía. Quando cheguei à Praça Municipal, fui atraída pela luz do fim de tarde. Peguei o celular e comecei a clicar. Fotografar sempre foi meu jeito de guardar o tempo. A luz. A mim.
Segui pelo caminho das cores e sons até o Pelourinho. Turista da minha própria cidade, tropecei em lembranças. A escola de dança ainda estava lá. O cheiro era o mesmo. Entrei sem saber por quê — ou talvez sabendo. Pesquisei os nomes dos professores e, como uma surpresa boa que a vida guarda em segredo, encontrei o nome dela: minha professora de dança contemporânea. Aquela que um dia me ensinou que dançar era um jeito de voar com os pés no chão.
Esperei por uma hora, coração aos pulos, como quem reencontra uma velha parte esquecida de si. Nos meus planos, eu ia ao mar. Fui preparada para mergulhar — corpo e alma — nas águas salgadas que renovam. Mas mergulhei foi na dança. E que mergulho!
O coração acelerado parecia querer escapar pela boca. Meu corpo suava frio, mas dentro de mim ardia uma chama. Cinco anos — ou mais — sem pisar naquele chão, sem ouvir aquela música com o corpo todo. Me entreguei. Chorei. Transbordei.
Senti a adrenalina como uma correnteza interna. Era como se meu corpo fosse leve demais para continuar preso ao chão. Flutuei. Saí de lá sem peso, sem tempo, sem dor. Saí de lá dançando por dentro.
A mudança de chave não veio com palavras, nem com planos. Veio com movimento. Veio com arte. Veio com verdade.
E naquele dia, eu descobri que, às vezes, para se encontrar, basta seguir o que faz o coração dançar.
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