segunda-feira, 28 de abril de 2025

Biblioterapia

BIBLIOTERAPIA


A gente vive aprendendo 
A ser bonzinho, legal, 
A dizer que sim pra tudo, 
A ser sempre cordial... 

A concordar, a ceder, 
A não causar confusão, 
A ser vaca-de-presépio 
Que não sabe dizer não! 

Acontece todo dia, 
Pois eu mesma não escapo. 
De tanto ser boazinha, 
Tô sempre engolindo sapo... 

Como coisas que não gosto, 
Faço coisas que não quero... 
Deste jeito, minha gente, 
Qualquer dia eu desespero... 

Já comi pamonha e angu, 
Comi até dobradinha... 
Comi mingau de sagu 
Na casa de uma vizinha... 

Comi fígado e espinafre, 
De medo de dizer não. 
Qualquer dia, sem querer, 
Vou ter de comer sabão! 

Eu não sei me recusar, 
Quando me pedem um favor. 
Eu sei que não vou dar conta, 
Mas dizer não é um horror! 



E no fim não faço nada 
E perco toda razão. 
Fico mal com todo mundo, 
Só consigo amolação. 

Quando eu estudo a lição 
E o companheiro não estuda, 
Na hora da prova pede 
Que eu dê a ele uma ajuda 

Embora ache desaforo, 
Eu não consigo negar... 
Meu Deus, como sou boazinha... 
Vivo só para ajudar... 

Se alguém me pede que empreste 
O disco do meu agrado, 
Sabendo que não devolvem 
Ou que devolvem riscado... 

Sou incapaz de negar, 
Mas fico muito infeliz...
Qualquer um, se tiver jeito, 
Me leva pelo nariz... 

Depois que eu estou na fila 
Pra pagar o supermercado, 
Já estou lá há muito tempo... 
Aparece um engraçado... 

Seja jovem, seja velho, 
Se mete na minha frente, 
Mas eu nunca digo nada... 
Embora eu fique doente! 



A gente sempre demora 
A entender esta questão. 
Às vezes custa um bocado 
Dizer simplesmente não! 

Mas depois que você disse 
Você fica aliviada 
E o outro que lhe pediu 
É que fica atrapalhado... 

Mas não vamos esquecer 
Que existe o "por outro lado"... 
Tudo tem direito e avesso, 
Que é meio desencontrado... 

Quero saber dizer NÃO. 
Acho que é bom para mim. 
Mas não quero ser do contra... 
Também quero dizer SIM!

Ruth Rocha


domingo, 20 de abril de 2025

Divisor de água


"E ontem ela ainda estava aqui..."

Ontem eu tinha minha mainha.
Estava ali, pertinho de mim. O cheiro do café dela ainda pairava na cozinha, o som da voz ecoava leve pela casa, como um canto de ninar antigo. E, de repente, ela partiu. Como quem atende a um chamado silencioso e inevitável. Partiu para o destino de todos nós.

A casa ficou mais vazia, o coração mais apertado. É uma saudade que pesa no peito, é uma falta que grita no silêncio. Mas junto dela vem uma gratidão profunda. Gratidão ao Criador que, em sua sabedoria, a poupou de um sofrimento maior. Sei disso, creio nisso. E isso me consola.

Hoje, mais do que nunca, vejo com clareza: a vida é um sopro. É breve, mesmo quando parece longa. Por isso escolho crer que a morte é um mistério que não precisa ser temido, apenas respeitado. E enquanto ela não vem, eu escolho viver.

Não viver com medo. Não viver empurrando os dias.
Mas viver de verdade.

Viver alegre, mesmo sem motivo.
Viver cantando, ainda que desafinado.
Viver festejando, mesmo que só tenha eu.
Viver chorando, se for preciso, porque até o choro ensina.
Viver agradecendo, porque cada dia é um presente.
Viver amando, porque o amor é o que nos conecta com o eterno.
Viver simplesmente... vivendo.

Porque viver, minha gente, é a melhor forma de honrar quem partiu.
E é também a melhor maneira de se preparar para o dia de partir.

Suzana Super Maravilhosa

Tribo é onde o coração se reconhece

*Tribo é onde o coração se reconhece*

Engraçado como as pessoas se aproximam.  
Às vezes, não é por grandes afinidades intelectuais ou laços antigos,  
mas por trilhos — caminhos parecidos que vão se encontrando ao longo da vida.

Tem a amiga da seresta — parceira de dança e de risada.  
Tem a amiga da praia, que entende o silêncio do mar  
e o gosto de água salgada na pele.  
Tem a amiga que liga só pra conversar “assunto de velho”,  
e a gente ri disso, porque afinal,  
rir é uma ponte que une qualquer idade.

Eu penso que essas conexões são como tribos.  
Não tribos fixas, daquelas que vestem uniforme e falam igual,  
mas tribos líquidas, flexíveis, feitas de momentos, gostos, fases.  
Se eu tivesse ido pra faculdade, talvez tivesse uma amiga de lá —  
minha amiga de sala, de café corrido  
e de confidências em corredores.

Mas não fui.  
E ainda assim, as minhas tribos surgem e se desfazem no compasso da vida.

E às vezes, tem fase que não tem tribo.  
Só tem eu.  
Eu e minha solitude, essa companhia que aprendi a apreciar.  
Nesses momentos, me sinto inteira.  
Não falta ninguém.  
Caminho comigo mesma  
e descubro que há um tipo de silêncio que conversa,  
um tipo de solidão que acolhe.

Porque tribo também pode ser um tempo de ser só.  
E viver bem, mesmo assim.

Suzana Super Maravilhosa