terça-feira, 6 de maio de 2025

Fortaleza Silenciosa


Fortaleza Silenciosa

Ella sempre foi daquelas que se antecipam à tempestade. Sabia que a vida exige preparo e coragem — e, por isso, nunca esperou o amanhã chegar para agir. Aprendeu cedo que quem tem medo da chuva de amanhã, conserta o telhado hoje. E assim viveu.

Planejava o futuro com olhos firmes e pés no chão. Engravidou duas vezes — e dessas chegadas vieram três filhos: primeiro, uma menina; depois, quatro anos mais tarde, um casal de gêmeos. Foram gestações de risco. Ela convivia com miomas, mas jamais se deixou abater. Fez o resguardo com responsabilidade e enfrentou cada desafio com fé, pois sabia que a missão de ser mãe começava muito antes do parto.

Ella também compreendia que, para dar o melhor aos seus filhos, teria que se doar. Trabalhou incansavelmente, mesmo nas madrugadas. Era cabeleireira, manicure, trancista — e, acima de tudo, guerreira. Enquanto a cidade dormia, ela trançava cabelos e destinos. Esmaltava unhas e esperanças. Ajeitava cachos e sonhos.

Durante 34 anos teve um companheiro ao seu lado. Amou com profundidade, com entrega verdadeira. Mas Ella também sabia que amor não é prisão. Acreditava que casamento deve ser “até que a morte os separe” — mas não necessariamente a morte do corpo. Quando morrem o respeito, o carinho, o cuidado… a relação também chega ao fim. Foi assim que terminou a história de 34 anos. E ela soube se refazer.

Hoje, com mais de meio século de vida, Ella vive intensamente a sua solitude. Descobriu que estar só não é estar vazia. Pelo contrário: é estar cheia de si. Com os filhos crescidos, a alma em paz e a coragem de quem já venceu muitas batalhas, ela segue caminhando com dignidade e alegria.

Para Ella, nunca foi sorte. Sempre foi luta. Sempre foi fé. Sempre foi ela — forte, sensível, determinada.

Porque ela entendeu, desde sempre, que quem teme a chuva de amanhã, fortalece o telhado hoje.

Texto de Suzana Super Maravilhosa

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