Leite Derramado
Ella sempre teve o dom de sorrir com os olhos, mesmo quando o coração chorava baixinho no escuro. Era dessas mulheres que ajeitam o lençol da cama antes de dormir como quem tenta esticar a própria vida, na esperança de desamassar as dores também.
Por fora, o casamento parecia uma fotografia antiga: um casal bem arrumado, lado a lado, segurando a moldura do que já foi amor. Por dentro, era uma casa onde as palavras moravam em quartos separados.
Era preciso manter o roteiro da felicidade, ainda que os bastidores estivessem em ruínas. O bom-dia era automático e a risada que dava nas rodas de amigos era só para ninguém perguntar demais.
Ella fingia. Porque fingir é uma forma de resistência quando tudo desaba devagar. Fingir é, às vezes, a maneira mais silenciosa de gritar.
Mas chega um momento em que o leite derrama. E foi numa tarde comum, com cheiro de comida requentada e cansaço nos ombros, que o leite escorreu pela beirada da panela, pingando quente no fogão e na alma.
Não tentou limpar. Não correu para salvar a aparência. Apenas respirou fundo e disse em voz baixa, para ninguém ouvir — ou talvez para ouvir a si mesma:
“Leite derramado não se enxuga. A gente aprende a não deixar ferver demais da próxima vez.”
E naquele dia, pela primeira vez em anos, Ella não sorriu com os olhos. Mas também não fingiu. Decidida disse o que realmente queria para sua vida. E isso, para Ella, já era um começo.
Suzana Super Maravilhosa
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