Eu sou Mãe Preta
Sou Mãe Preta, tenho um filho preto, tenho duas filhas pretas.
Como celebrar o dia da Consciência Negra quando me vem à mente tantos momentos de sofrimento que já passei; um certo dia, na rua no carnaval o policial que não pediu licença, senti no braço a porrada com o cassetete, pedindo passagem; eu preta, cabeça raspada, não era digna de me pedirem licença.
Gostaria de celebrar, mas me vem à mente que meus filhos gêmeos, foram com os amigos, no total de dez pessoas, felizes comemorar seus 15 anos e foram barrados no shopping pelo segurança, também preto, que disse que aquele "bonde" ali não ia entrar, nesse dia meus gêmeos estavam completando 15 anos e com decepção voltaram da porta e foram para outro shopping, que deixaram eles entrarem. Me dói, anos depois lembrar desse fato. Gostaria de Celebrar esse dia, mas me vem à memória, que há anos atrás na companhia da minha filha, na época com 9 anos, um jovem também preto, me seguia na loja, quando cheguei no caixa, tinha uma pessoa fazendo sinal para outra na porta da loja, vi aquilo como uma conversa de sinais, paguei minhas compras e sai. Quando, alguns metros fora da loja, em meio à multidão no centro da cidade, aquele que me perseguia na loja me abordou, eu ali com minha filha de 9 anos, e me disse que precisava que eu devolvesse o que tinha colocado na minha bolsa, perguntei: - o que? E ele disse: - A agenda Senhora. Foi quando tirei minha agenda de anotações e mostrei a ele e perguntei: - Essa? Ele pegou folheou e viu que era semelhante ao da loja, sendo que, usada, me pediu desculpas. Disse a ele que não desculpava, mas o perdoava e fui dar sequência ao meu dia, com uma dor tão grande. Sou preta, sou seguida, sou acusada, sou cabelo natural, de chinelo e de calça jeans.
Gostaria de celebrar esse dia, mas um dia uma mãe de filho branco me falou que se o filho dela que estudava em colégio particular perdesse o ano, o castigo dele seria: estudar no colégio público, o que me disse ela com isso? Que castiguei durante toda a vida os meus filhos?
Gostaria de celebrar, sem medo de pretos e pretas serem abordados pelo simples fato de serem pretos e pretas.
Gostaria de celebrar, mas quando vejo que o sistema tirou a formação de segundo grau onde os jovens concluíam o segundo grau, com a formação técnico e não percebemos ou fingimos não perceber esse retrocesso, onde não tendo uma formação técnico, faz dos nossos jovens escravos remunerados das grandes 'senzalas' disfarçadas de empresas diversas?
Gostaria de celebrar...
Mas a minha dor, não deixa.
Meu medo, não deixa.
Os fatos recorrentes, não deixa.
A impunidade, não deixa.
Gostaria, sim, gostaria de celebrar…
Suzana Super Maravilhosa
Em 20 de novembro de 2020
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